LGBT Portugal

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Não homofobia. Mais cidadania.

07 dezembro 2009

"Casal" ou "Par"

" O fa(c)to de se associar a casal o conceito de casa mais os seus habitantes pode advir do significado mais antigo da palavra, que, antes de designar duas pessoas ligadas por laços afe(c)tivos, designava a propriedade onde viviam todos os membros da família. Ainda hoje se utiliza a palavra casal no sentido de herdade ou propriedade rural.
Por seu lado, par significa igual e inicialmente designava, e ainda designa, os membros de um grupo que tinham direitos e deveres iguais. Este conceito deu mesmo origem à expressão latina ‘inter pares’.

Em dado momento da sua evolução, ambas as palavras passaram a designar duas pessoas ligadas afe(c)tivamente. Primeiro, considerando apenas laços entre um homem e uma mulher; depois, designando explicitamente ligações entre pessoas do mesmo sexo. A consulta de dicionários mais ou menos recentes permite-nos verificar esta evolução.
(...) até se diz que um casal forma um belo par, mas não se diz que um par forma um belo casal. Em par, parece-me haver uma ideia mais forte de igualdade, enquanto casal, até pela origem da palavra, veicula uma ideia de tradição e de hierarquia. No par não há cabeça. No casal há!

Por outro lado, ainda que venha a verificar-se uma distinção, usando por exemplo casal para um par heterossexual e par para um par homossexual, esse fa(c)to pode apenas resultar de uma processo cara(c)terístico da língua, que consiste em associar a cada palavra, preferencialmente, um conceito, economizando desta forma outras palavras. Se, por exemplo, daqui a vinte anos, todos os falantes, ao ouvirem par, associarem automaticamente a casal homossexual e, ao ouvirem casal, pensarem num par heterossexual (ou vice-versa), isso vai constituir uma grande economia e uma grande clareza."

Casal"gay" ou par "gay", por João Paulo, in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa


"Gay" ou "Gai"
"Para já, em português não são de usar esses termos, por não serem vernáculos. O vocábulo inglês gay tem, entre outros sentidos, os de "dissoluto, imoral"; destes facilmente se terá passado ao de "homossexual". A palavra gay existe desde o médio inglês, e vem do francês arcaico (e moderno) gai "alegre", de etimologia desconhecida."

por António Batalha, in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
"etimologia do Lat. etymologia"
Assim, vamos ver a etimologia da palavra "casal"? Aí vamos nós.
"casal de casas."
Ficámos a saber que casal vem de "casa". Brilhante, não é? Então vamos ver a etimologia da palavra "casa".
"casa do Lat. casa, choupanas. f."

E com isto concluímos que etimologicamente, "casal" vem de "casa", que por sua vez vem do equivalente latino para "choupana". Culturalmente, poderá significar muitas coisas - em boa verdade a característica própria da cultura é o seu carácter construído. Desta forma, não vem mal nenhum ao mundo em dizer que há um "casal" homossexual, especialmente se coabitarem - aliás, "etimologicamente" (...) - é mais apropriado falar de "casal" homossexual no caso de duas pessoas que, sendo do mesmo sexo e mantendo relação afectiva, habitem a mesma casa, que falar de "casal" no caso de um par de namorados heterossexuais que não vivam em conjunto, dado que não construíram "casa" comum.
No entanto e porque eu, mesmo sabendo o significado da palavra "etimologia", sou bastante aberto e tolerante, emprego livremente a palavra casal para designar indiscriminadamente pares homo ou heterossexuais, habitanto ou não em conjunto."


Por Igor, in 0deconduta
O "Casal Gay" e a Catacrese

" Não faz muito tempo, um leitor escreveu para a Folha queixando-se do freqüente uso feito pelo jornal do que ele considera uma impropriedade lingüística, a saber, a expressão "casal gay".  O motivo da indignação se fundamenta na definição que os dicionários trazem da palavra "casal": "par composto de macho e fêmea ou de homem e mulher". Assim, duas pessoas do mesmo sexo não poderiam, em tese, constituir um casal.

Ocorre, entretanto, que duas pessoas do mesmo sexo podem conviver como um casal. E a diminuição do tabu em relação ao homossexualismo torna essa situação mais corriqueira e, sobretudo, mais visível. Assim, surge a necessidade de um termo para dar conta dessa realidade. Não é preciso pensar muito para, automaticamente, por analogia com os pares heterossexuais, considerar um casal dois homossexuais que namorem ou vivam juntos. O adjetivo "gay" exprime a particularidade desse casal.

Na falta de uma palavra específica, a língua põe à disposição dos seus usuários a possibilidade de estender o significado de uma palavra que guarde vínculo analógico com aquilo que se pretende nomear. Surge, então, uma espécie de metáfora "obrigatória", ou seja, uma palavra que nasce de um processo figurativo da linguagem, mas sem intenção poética. Esse procedimento, que é espontâneo, chama-se "catacrese", termo que significa, segundo a etimologia, "o emprego de uma palavra em sentido abusivo".

Os exemplos de catacrese são abundantes, sobretudo na linguagem informal. "Céu da boca" no lugar de "palato" ou "abóbada palatina", "maçã do rosto" no lugar de "pômulo", "relógio" no lugar de "medidor de energia elétrica" estão entre muitos outros. A catacrese pode surgir como uma imagem mais concreta ou mais sintética que o seu substitutivo. Os termos "teto" e "piso" usados para indicar valores (o mais alto e o mais baixo respectivamente) permitem a compreensão imediata e, portanto, são eficazes e se instalam na linguagem do dia-a-dia. O mesmo vale para o "casal gay".
É comum que a catacrese tenha como ponto de partida as partes do corpo humano, que, reduzidas, sempre por analogia ou comparação, a um significado mais geral, passam a figurar nas mais diversas situações. "Nariz do avião", "olho do furacão", "olho da rua", "boca do túnel", "pescoço da garrafa" ("long neck", em inglês, quer dizer "pescoço longo"), "pé da página", "pé da mesa", "braço da poltrona", "orelha de livro", "cabeça de prego", "cabeça de alho", "dente de alho", "cabelo de milho" e até "as costas da mão", "o peito do pé", "a barriga da perna"...(...) "

Por Thaís Nicoleti de Camargo, in Coluna da Folha Online
" A homossexualidade só é assunto porque há preconceito. Caso contrário, seria tão banal como ter olhos azuis ou verdes, ser alto ou baixo. Luto para um dia seja assim.Eu não falo da minha sexualidade po mim; falo dela por causa do jovem que vive em Beja e da rapariga que vive em Vila de Conde. Ambos se sentem frágeis devido á sua sexualidade, não conseguem assumi-la porque estão rodeados de pessoas com preconceitos. Têm que viver atrás de uma máscara. É por causa deles que falo, para que entendam que podem ser felizes, realizados, viver com amor, com paixão, com tudo. E que não têm que mudar. É importante que cada um de nós viva como é. "
Parte da entrevista a Richard Zimbler, escritor, ao JN

O QUE HÁ NUM NOME? - dn - DN

" (...) É permitido à maioria decidir por quem se devem apaixonar as pessoas, e como têm o direito de consagrar as suas paixões; é permitido à maioria banir os homossexuais para a clandestinidade. De uma vez por todas, assuma--se a homofobia como um valor da sociedade portuguesa. Propostas de um nome especial para os casamentos homossexuais são homofobia envergonhada, que não se assume. Assumam-se. Repitam comigo: eu sou homofóbico. As coisas devem ter os nomes certos, certo? "

DN-Opinião, por Fernanda Câncio